Godot deve ser um baita de um filho da puta. Deve não, é. Já não seria suficiente ele deixar Didi e Gogo o esperando até agora, mas ele ainda conseguiu acabar com qualquer tentativa de um futuro para esses dois otários. Todo um mundo de possibilidades estava diante deles: as luzes, a cortina aberta, o palco, a platéia... Mas sua necessidade de esperar Godot barrou qualquer novidade, qualquer surpresa e condenou dois pobres coitados, com suas visões embaçadas pelo esperança godotiana, não avistaram o horizonte. Suas realizações só poderiam ser possíveis naquela cosmos restrito, no qual Godot, o grande vilão, domina.
Beckett nos mostrou isso duas vezes. Sua "descuidada" repetição de coisas diferentes poderia se estender ao infinito. Aliás, estende-se. Apenas o teatro que é muito pequeno para isso. O papel é pequeno para isso. Nossa imaginação, grande o suficiente, é limitada para entender nossa agonia.
Enquanto isso, Estragon diz ao seu companheiro:
- Vamos embora?
- Não podemos
- Por quê?
- Estamos à espera de Godot...
E o que os prendia lá? Anseios, esperanças, desejos ou apenas o alívio conformista de um sentimento de "trabalho realizado". No final são apenas idealizações de uma realizade impossível, mas que julgamos melhor. Tal como Sísifo em seu trabalho eterno, Vladimir e Estragon seguem a nossa sina, esperar algo irreal, que virá amanhã.
E não me importa saber quem é Godot, só que ele é um tremendo filho da puta.